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Categoria: Destaque, Opinião, Política

O futuro ministro do “desmatamento genérico”

Da Redação SPRIO+ Publicado em 11/12/2018, às 13:37 • Atualizado em 11/12/18, às 14:38




Por Leandro Becceneri

O presidente eleito Jair Bolsonaro anunciou no domingo (9) a escolha do advogado Ricardo de Aquino Salles, 43 anos, para ser seu ministro do Meio Ambiente, segundo mensagens postadas nas redes sociais. Candidato derrotado a deputado federal pelo Partido Novo, por São Paulo, recebe como prêmio de consolação uma das pastas mais importantes do governo brasileiro.

Salles foi secretário de meio ambiente no governo do estado de São Paulo, por um ano, entre 2016 e 2017, no governo Geraldo Alckmin, quando era integrante do PP (partido de Paulo Maluf). Réu na Justiça, alvo de ação de improbidade administrativa, sendo acusado de alterar e manipular mapas de manejo ambiental do rio Tietê, chega ao maior cargo de sua carreira com o apoio de industriais e ruralistas brasileiros. Lidera uma organização chamada “Movimento Endireita Brasil” (MEB), que parece não querer realmente endireitar o país, mas apenas fazê-lo seguir sua ideologia.

Durante sua campanha a deputado federal, defendeu ideias conservadoras e liberais (seria mais um conservador nos costumes e liberal na economia?). Seu movimento MEB apareceu nos portais de notícia por ter publicado nas redes sociais um anúncio oferecendo o valor de R$ 1.000,00 a quem gravasse em vídeo ataques ao ex-presidenciável Ciro Gomes. Além disso, também em uma de suas propagandas de campanha, incitou a violência, ao sugerir que é preciso combater “a esquerda e o MST” à bala de fuzil, e não com debates e ideias.

Em uma entrevista concedida a CBN na última segunda-feira (10/12/2018), o novo ministro afirma que os dados disponíveis sobre desmatamento são “genéricos” e não dizem se as áreas devastadas são legais ou ilegais. É importante considerar que institutos de pesquisa nacionais e internacionais vêm monitorando o desmatamento da Amazônia há décadas, com métodos avançados de análise, como imagens de satélite e outras técnicas de sensoriamento remoto. Essas informações são cruzadas com outros dados como os de áreas privadas, unidades de conservação e terras indígenas, qualificando e quantificando o desmatamento, para assim, orientar as políticas públicas. Parece que o novo ministro também desconhece esses fatos.

Outro ponto crítico de sua entrevista é quando diz que o Projeto de Lei 6.299, também chamado de “PL do Veneno”. Ele diz que chamar tal projeto deste modo é uma “injustiça tremenda”. Utiliza tais adjetivos sem expressar claramente o porquê considera tal nomenclatura uma injustiça. Também não expressa quais as consequências positivas para a população e para o país, se resumindo a dizer que a aprovação de novos “defensivos agrícolas” será mais rápida e com menos burocracia.

É importante lembrar que o Brasil abriga a maior floresta tropical do mundo, a Amazônia, com sua preservação sendo vista por especialistas como fundamental para evitar concentrações mais altas de dióxido de carbono na atmosfera, responsáveis pelo aquecimento global e pelas mudanças climáticas. Além disso, a floresta também produz e regula as chuvas, tão essenciais ao agronegócio brasileiro. Ainda, o país também abriga outros biomas ameaçados, como o Cerrado, a Caatinga, a Mata Atlântica e o Pantanal.

O novo ministro diz que a política ambiental agora será feita sem “ideologia”. Entretanto, por provavelmente ignorar o significado dessa palavra ou por estar cego por seus próprios dogmas, desconhece que seu posicionamento e sua visão de mundo são guiados exclusivamente por sua ideologia tosca, sem admitir diferenças de visões ou pensamentos. Sua escolha, aliás, se deve muito menos a sua competência técnica e representatividade na área ambiental do que por suas afinidades ideológicas com os asseclas de Bolsonaro (cadê a meritocracia, defendida pelo Partido Novo?).

O que o ministro precisa entender, e rápido, é que a gestão do meio ambiente não pertence a ideologias políticas, não é algo de direita, de centro ou de esquerda. Como muito bem lembra o jornalista André Trigueiro, a sustentabilidade é sinônimo de sobrevivência. Não adianta derrotar a esquerda e não ter ar para respirar. Não adianta destruir o MST e não ter água para plantar. Não adianta propagar suas ideologias aos quatro cantos do mundo, se o planeta não for mais habitável. Portanto, para ocupar um cargo de tal importância, o novo ministro deveria reconhecer que medidas que desagradem os setores que o apoiam são necessárias, tendo em vista o interesse coletivo do Brasil enquanto nação soberana e a sobrevivência dos ecossistemas nacionais.

Foto: Agência Brasil



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