Categoria: Destaque, Opinião

A primeira impressão é a que fica? Análise do primeiro mês do governo Bolsonaro

Da Redação SPRIO+ Publicado em 31/01/2019, às 16:15 • Atualizado em 31/01/19, às 16:15




Dizem que a primeira impressão é a que fica. Será que isso cabe também para os governos?

Em 1º de janeiro de 2019 teve início a presidência de Jair Bolsonaro. No último dia do primeiro mês de seus 48 na presidência da república, cabe fazermos uma análise sobre o que se viu até aqui. Ainda que se possa chamar de precipitada uma reflexão sobre o governo nesse momento inicial, é importante destacar que a população, assim como o mercado e os investidores, não pode esperar meses ou anos para analisar algo que influencia suas vidas a todo momento. Para o mercado financeiro, as análises são feitas semanalmente, como forma de balizar investimentos e expectativas a curto prazo.

Qual foi então a primeira impressão do novo governo? O primeiro mês da gestão Bolsonaro deixou como marca a descoordenação e desorientação das suas ações, opiniões e iniciativas. Muitas foram as decisões que, após anunciadas, foram desmentidas ou “voltadas atrás”. O repertório de recuos inclui: o anúncio da redução da alíquota de Imposto de Renda; as mudanças anunciadas na política de licitação de livros didáticos; o fechamento da Emissora Brasil de Comunicação (EBC); a suspensão da reforma agrária; a implantação de uma base americana no Brasil; a permanência do Brasil no Acordo de Paris (essa, uma “voltada” positiva para o país) e, mais recente, a flexibilização das licenças ambientais, que agora é relativizada.

Entre os pontos positivos, a manutenção da lua de mel com os mercados parece garantida, com a bolsa de valores subindo em quase todo o mês de janeiro (exceto após o desastre de Brumadinho) e o dólar caindo levemente. Há de se destacar, porém, que o Boletim Focus, do Banco Central, vem apresentando a cada semana ligeira redução da euforia dos mercados. Para os apoiadores do bolsonarismo e as fábricas de armas, outra notícia positiva foi a ampliação da posse de armas de fogo por civis, cumprindo uma promessa de campanha.

Na “costura” política, a nova gestão propôs acordos com as bancadas ruralista, da Bíblia e da bala, tentando criar uma sólida base de apoio no parlamento. Entretanto, sucumbiu à velha política, apoiando Rodrigo Maia (DEM) para a presidência da Câmara dos Deputados. Viu também deputados de seu partido fazerem uma visita à China comunista, com a viagem bancada pelos chineses. Os deputados publicaram postagens e vídeos maravilhados sobre o país, proferindo frases como “na China as coisas funcionam”. Portanto, se você se perguntar onde foi que o comunismo deu certo, os deputados bolsonaristas do PSL te fornecem a resposta.

É claro, a oposição também merece destaque nesse início de governo. Enquanto o tal bloco de oposição parece derreter com a migração de alguns partidos para a candidatura de Rodrigo Maia, o ponto alto do mês de janeiro foi a ida da presidente do PT à “posse” de Nicolás Maduro, ditador presidente da Venezuela. Não bastasse todo o cenário desfavorável ao partido, sua líder fornece mais munição a oposição, parecendo contrariar qualquer lógica racional, servindo apenas para deslegitimar suas ações e seu discurso.

Para além dos fatos referentes às ações do governo, seus ministros protagonizaram episódios à parte. Tirando aqueles investigados ou acusados de atos ilícitos, o destaque vai para a ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, que provou ser uma máquina de produzir memes, com todo tipo de declarações rasas e pautadas no senso (in)comum. Além dela, outros titulares de pastas também merecem destaque: Sérgio Moro, ministro da justiça e principal juiz da operação Lava Jato, agora mostra-se surdo, cego e mudo aos fatos que ocorrem no governo em que trabalha, o qual ajudou a eleger. O ministro das relações exteriores segue firme com suas ações contra o “globalismo” e o “marxismo cultural”, ainda que ninguém saiba ao certo o que é isso ou o que isso significa. O titular da educação por sua vez, deu declarações de que as universidades públicas devem servir apenas a “elite intelectual” do país, e não a todos.O ministro do meio ambiente demonstra desconhecimento da realidade do país e de suas instituições, encabeçando as ideias de flexibilização, desregulamentação e agilidade na concessão de licenças ambientais…Mariana e Brumadinho mandam lembranças.

Até nomes menos polêmicos e criticados, como Marcos Pontes, da Ciência e Tecnologia, viram suas listas de ações prioritárias serem desconsideradas pelo presidente, sem maiores explicações ao público.O “guru” do novo governo, Olavo de Carvalho, chegou ao ponto de questionar o heliocentrismo, sendo ridicularizado nas redes sociais. Mourão, o vice general, parece cada vez mais buscar o protagonismo no governo, sendo um contraponto racional ao presidente e a sua equipe mais próxima.

Talvez, o principal problema em relação a articulação do novo governo esteja justamente em seus membros.Pergunta-se: O que os une enquanto governo, enquanto uma equipe? Qual o ponto de convergência entre eles?Seria o ódio ao PT? O horror a “ideologia de gênero”? o medo do comunismo?Esses fatores parecem muito pouco significativos para criar uma equipe que irá gerir um país do tamanho do Brasil, que é a 8º maior economia e possui a 6º maior população global.

Como se não bastasse esse time de “peso”, ainda se assistiu a uma avalanche de fatos envolvendo o senador e filho do presidente, Flávio Bolsonaro, abrindo uma crise crescente de grande gravidade para o governo. Tal crise se iniciou com a revelação de depósitos suspeitos na conta do senador, que não consegue dar uma explicação coerente sobre tais fatos. Para piorar a situação, o pivô do escândalo, Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio, se abrigou na favela de Rio das Pedras, após ter sido revelado que havia movimentado de maneira“atípica” R$ 1,2 milhão entre 2016 e 2017. Ocorre que tal favela é dominada por milícias. Até aí, nada que possa chocar um brasileiro bem informado. Entretanto, no dia 22 de janeiro, cinco suspeitos do assassinato da ex-vereadora da cidade do Rio, Marielle Franco, foram presos acusados de serem integrantes da milícia que controla as comunidades da Muzema, Rio das Pedras e adjacências, justamente a região onde o ex-assessor do filho do presidente teria se escondido. A ligação entre os fatos levantou uma forte suspeita e também questionamentos, especialmente sobre o envolvimento da família Bolsonaro com as milícias do Rio.

Como tudo que é ruim pode piorar, na mesma semana foi revelado que a mãe e a mulher de um dos denunciados na operação contra milicianos trabalharam no gabinete de Flávio, quando ele era deputado estadual na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). Além disso, ela aparece como uma das pessoas que fizeram depósitos para Queiroz. Flávio ainda fez homenagens públicas aos milicianos presos, na Câmara de Deputados do Rio.

Já no final do mês, a participação brasileira no Fórum Econômico Mundial, que seria uma oportunidade de mostrar o novo governo ao mundo, mostrou-se um desastre internacional, com o discurso de 6 minutos do presidente, de um total de 45 permitidos, sendo o mais curto da história de um presidente brasileiro,mostrando-se raso e vazio de conteúdos significativos para tal fórum (Cabe uma ressalva: o tempo do discurso em si, não é o importante. Em 2014, a ex-presidente Dilma fez um discurso de 32 minutos, dizendo que estava tudo bem com o país e que seguiríamos crescendo e liderando os países emergentes…os resultados nos anos seguintes foram desastrosos…).Soma-se a isso a “fuga” da equipe de governo de uma entrevista coletiva e declarações inapropriadas para a mídia internacional.

Fechando o primeiro mês de governo, o país assistiu, mais uma vez, a um desastre ambiental e humano, agora em Brumadinho, no mesmo estado de Mariana, Minas Gerais. Uma catástrofe que provocou comoção nacional e fortes críticas ao país, estampando as capas dos principais jornais em todo o mundo, colocando em xeque as propostas bolsonaristas de flexibilização e diminuição dos entraves para a exploração dos recursos naturais do Brasil. O governo agora muda seu discurso de campanha, dizendo que apenas empreendimentos de baixo risco podem ter suas licenças “desburocratizadas”. Talvez o IBAMA e outros órgãos de fiscalização não sirvam apenas para produzir multas…

Ainda faltam 3 anos e 11 meses. O governo está só começando…

Por: Leandro Becceneri



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