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Inversão trágica: Amazônia agora emite carbono, aponta pesquisadora do INPE

Estudo liderado por Luciana Gatti, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, mostra que, por causa das queimadas, a floresta hoje emite mais dióxido de carbono do que é capaz de absorver. Posiciona-se também em relação à proposta de liberar a construção de termelétricas na cidade

José Guilherme R. Ferreira Publicado em 17/07/2021, às 16:14 • Atualizado em 17/07/21, às 19:02




Foto: Arquivo/INPE

A Amazônia brasileira está emitindo mais carbono do que é capaz de absorver. A notícia, propagada esta semana pela prestigiosa revista Nature, dá detalhes de uma pesquisa liderada por Luciana Gatti, coordenadora do Laboratório de Gases de Efeito Estufa do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), em São José dos Campos. É a primeira constatação já descrita dessa inversão trágica de papéis: a Amazônia agora é fonte de emissão, produzindo mais de um bilhão de toneladas de dióxido de carbono por ano.

O mundo olhava a floresta justamente como uma grande esponja de absorção das emissões de CO2, uma espécie de freio do processo de aquecimento global. “A perda do poder da Amazônia na captura do CO2 é um forte alerta de que reduzir as emissões de combustíveis fósseis é mais urgente do que nunca, disseram cientistas a Damian Carrington, editor de Meio Ambiente do jornal The Guardian. Vivemos tempos de “emergência climática”, disse  Luciana Gatti a André Miragaia, no programa “Natureza em Foco”, da TVI, um dia depois da publicação do artigo, em meio a uma movimentada agenda de entrevistas. Ela defende a urgência de um acordo global para salvar a Amazônia.

Análise de amostras

Há cerca de dez anos os pesquisadores do INPE vêm coletando e analisando amostras em algumas regiões da Amazônia brasileira. Na verdade, desde o início já se antevia a possibilidade desse desvio de rota, agora anunciado com todas as letras. Os pesquisadores queriam dados mais certeiros, incontestes. Até então as análises do desmatamento tinham como referência principalmente imagens de satélite, sempre importantíssimas, diga-se de passagem. Agora o retrato foi aprofundado com amostras de emissões colhidas in loco, sistematicamente, com a ajuda de pequenos aviões. Foram 600 amostras verticais de CO2 e monóxido de carbono, em áreas de queimadas, em quatro regiões diferentes da floresta, de 2010 a 2018.

A pesquisa do INPE destaca principalmente o desmatamento da floresta no sudeste amazônico, entre Pará e Mato Grosso. “Há muito gado na Amazônia”, reforça Luciana. Grande parte das emissões, como se sabe, são geradas pelas queimadas, método utilizado para “liberar” a terra para a soja e para pastagem animal. Soma-se a tudo isso a fragilização dos órgãos de fiscalização, empreendida pelo governo federal.

A conta apresentada pelos pesquisadores é a seguinte: as queimadas produzem cerca de 1,5 bilhão de toneladas de carbono. A floresta em pé consegue absorver 500 milhões. Assim, 1 bilhão de toneladas vai para a atmosfera, o equivalente às emissões anuais do Japão, o quinto maior poluidor, na comparação calculada pelo The Guardian.

Desmatamento, seca

Entre 1º de janeiro e 25 de junho deste ano, a Amazônia perdeu 3.325 km² de mata, índice superior ao dos anos anteriores, segundo os últimos dados registrados pelo sistema de monitoramento do INPE. O gráfico da destruição desenha um flecha ascendente indicando que a situação pode piorar. Parte da floresta desmatada está muito seca.

A pesquisa mostrou ainda que não somente as queimadas são responsáveis pelas emissões, o que torna o quadro mais dramático ainda, segundo os cientistas. Como resultado de anos de desmatamento, as florestas adjacentes a essas áreas ficam mais frágeis no ano seguinte.  E é todo um processo: menos árvores, menos chuva e a floresta cada vez mais vulnerável. “Estamos plantando a seca”, resumiu a pesquisadora ao “Planeta em Foco”.

São José precisa de termelétricas?

Foto: Lucas Lacaz Ruiz/A13

Um dia após ver suas ideias e conclusões ganhando destaque na imprensa de todo o mundo, Luciana Gatti colocou seu conhecimento para enriquecer o debate sobre uma questão ambiental, digamos, emitida no seu quintal: o projeto da Prefeitura de São José dos Campos que pretende emendar a Lei Orgânica, no sentido de liberar a construção de termelétricas na cidade.

A pesquisadora participou virtualmente da reunião do Conselho Municipal do Meio Ambiente (Comam), na quinta-feira (foto acima). A opinião dela sobre as térmicas: “hoje a emergência climática se impõe; as termelétricas vão no caminho contrário, aumentando as emissões de CO2.” É, portanto, contra as termelétricas, mesmo aquelas à base de gás natural, combustível também poluidor. Defende a busca de alternativas.

Foto: Lucaz Lacaz Ruiz/A13

Editorial: vamos debater?

Resta saber como a Prefeitura e os vereadores vão encarar a pressão dos ambientalistas e de qualificados cientistas, como Luciana Gatti. Uma reclamação consensual dos opositores ao projeto é a de que não houve debate com a sociedade, nem mesmo no Comam, que seria o fórum ideal para isso. A alteração proposta teria sido enviada à Câmara na surdina. Neste sábado, houve manifestação e coleta de assinaturas contra o projeto das termelétricas no centro de São José dos Campos (foto acima). Garantir a oferta de energia é importante? Sim. Há alternativas? Vamos debater?



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