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Pitiu Bomfin: arte de intervenção; intervenção pela arte

Sempre pronta a brigar pela arte, artista joseense pinta, intervém em fotografias e recontextualiza objetos para criar novos significados e estimular a crítica

José Guilherme R. Ferreira Publicado em 2/09/2021, às 23:21 • Atualizado em 3/09/21, às 13:48




Pitiu Bomfin, curadora da Arte Viva, e sua obra “Quero ser pintura”, de 2005. Foto: Divulgação

Se você perguntar para Pitiu Bomfin quais artistas contemporâneos atualmente a comovem, ela tem a resposta na ponta da língua: Jaider Esbell e Daiara Tukuna, artistas indígenas que têm “aberto grandes janelas” com a reescrita da história dos povos originais do Brasil. A artista joseense pode citar ainda, para além de qualquer território e fronteira, Ai Weiwei, o chinês que, ao lado de grandes instalações, denuncia a falta de transparência dos poderosos do seu país, mostra indignação com a censura de ideias, com o consumo  desenfreado, com o colapso do meio ambiente e a violação constante de valores humanistas. Pitiu também faz parte desse grupo genealógico de artistas que não se contentam com a obra em si, aqueles que se apresentam para os debates da sociedade.

“Indignação” (2017), em exposição no Centro Cultural Maria Antonia. Foto: Divulgação

Seu trabalho “Indignação”, uma instalação feita em 2017 no Centro de Arte Maria Antonia, em São Paulo, no histórico prédio da Faculdade de Filosofia da USP, dá o tom da sua prática: Pitiu interveio com tinta acrílica vermelha e cor de barro na imagem em lona de uma obra de Athos Bulcão (1918-2008) – justamente o painel de azulejos à frente do qual políticos costumam se posicionar para entrevistas e blablablás, no Congresso Nacional, em Brasília.

O painel também ganhou uma galeria com fotos de ex-presidentes brasileiros: na verdade, 36 retratos devidamente “pintados” com motivos indígenas. À frente destes, bacias de metal dourado foram usadas para “oferendas”: um cocar (confeccionado por uma tribo de Ubatuba), brinquedos artesanais, exemplares de constituições brasileiras chamuscados, algemas, óculos ray-ban (do modelo usado pelo general Figueiredo) e capim num torrão de terra, que obviamente e simbolicamente, sem rega, esturricou depois de certo tempo à vista dos visitantes. Esses elementos e objetos inusitados reapresentados, pintados, borrados, sobrepostos, aplicados a imagens consagradas, oficiais, criaram um pretendido jogo de novos significados. Recentemente a artista atualizou essa obra: enviou para a Bienal Sur, organizada por curadores de Buenos Aires, a fotografia do presidente Bolsonaro, em P&B, imagem “degradada” tal como a da atual política (ou a inexistência de uma) para as artes.

A arte marcada por intervenções convive em Pitiu com sua disposição em engajar-se no pulsar da arte da sua cidade. Nesse sentido, é uma ativista. Marca presença em espetáculos e exposições incentivando novos artistas, consagrando os mais velhos. Participa com o mesmo entusiasmo da luta por espaços expositivos e de projetos de “alfabetização visual”, de arte-educação e de formação de professores. Integra o recém-articulado GT Mulheres de Cultura, um coletivo que defende espaços para a mulher nas mais diversas áreas da produção artística.

Arte Viva

Em 2018, Pitiu foi convidada pela Fundação Cultural Cassiano Ricardo a “dar uma olhada” no acervo do Museu Municipal. Conseguiu dar um novo sentido à rica coleção com a exposição Arte Viva, na qual destacou como curadora dois marcos históricos importantes da arte na cidade: a Escola de Belas Artes, com Johann Gütlich à frente, e o Ateliê Livre de Pintura, dirigido por Estevão Nador e amigos concretistas, como Ermelindo Fiaminghi. Com projeto expositivo de Célia Barros, cerca de 70 trabalhos (entre pinturas, desenhos e escultura) de 43 artistas foram reapresentados à cidade. Obras de Tatiana Blass, Tereza Nazar, Mônica Nador, Régis Machado, Maria Bonomi, Alex Flemming, Cidinha Ferigoli, Iracy Puccini, Tuneu, Edith Reinhart, Décio Soncini, Johann Gütlich, Nelson Quaresma, Luigi Zanotto, Claudionor Itacarambi, Luiz Irene Galvão, Sósthenes, Swoboda. No acervo, também trabalhos que Pitiu fez em 2005: “Quero ser pintura”, com reaproveitamento de peças de outdoors, pintura em chapas de galvanizado.

Mapa da Ilusão Cultural

Nem sempre foi assim, festa em museu. Em 2004, integrante do grupo Núcleo, então formado por 12 artistas locais, Pitiu participou da exposição “Caçamba”, com duras (e divertidas, por que não?) críticas à política cultural da cidade. “Onde expor em São José dos Campos?” era a pergunta-mote de artistas que estavam produzindo, mas não tinham então onde mostrar seus trabalhos. Gravuras “expostas” em caçambas, dessas de entulhos, seriam espalhadas pela cidade. Tiveram que se contentar em espaço no Sesc. Do projeto original vingou inteiramente a publicação e distribuição de 4.000 exemplares de um mapa batizado de “Ilusão Cultural”, como aqueles que apontam para pontos e equipamentos culturais de uma cidade. Mas no mapa do Núcleo, todos os pontos de atração eram ficção. Uma chave de verdade de um museu de mentira foi preparada para que o então prefeito (de verdade) Eduardo Cury pudesse abrir as portas fictícias de um museu fictício.

“Chita”, obras de 2016

Pitiu reconhece que a cultura da cidade vive nova fase. Segundo ela, um ponto de virada aconteceu principalmente quando o governo do Estado implantou em São José as oficinas culturais. Washington Freitas, o Tom, atual presidente da Fundação Cultural Cassiano Ricardo (FCCR) foi um dos primeiros gerentes desse projeto. Não é à toa que a indicação de Tom ao novo cargo foi bem recebida pelos artistas locais. Em tempos de pandemia, os funcionários da FCCR trabalharam muito para manter em pé uma extensa programação virtual. Pitiu e outros artistas, em paralelo, criaram o Arte Movimenta, uma espécie de “aceleradora cultural”, que conseguiu recursos (“pouco, é verdade”) para apoiar pequenos projetos, principalmente de artes visuais.

Cultura da chita

Mesmo diante do atual quadro de boa infraestrutura oficial, Pitiu diz que, muitas vezes, ainda se espanta com a falta de sintonia entre a cidade que se orgulha de produzir tecnologia de ponta, mas que insiste na “cultura da chita”, uma referência ao tecido colorido, geralmente usado para criar um clima de pureza caipira. Onde está o acervo digital do museu da cidade tecnológica em tempos de pandemia? Pitiu já fez piruetas com obras ligadas ao tema. Em 2016, vestiu Monalisa com chita, fez a silhueta de aviões da Embraer com chita, em rasante pelo Banhado, usou chita como tecido da bandeira da cidade.

“Invasão do Pinheirinho”: pintura sobre foto de Lucas Lacaz Ruiz, com deposição de terra e entulhos (2013)

Três anos antes, a artista já tinha exposto outro contraste da “São-José-das-startups” com a obra “Invasão do Pinheirinho”, exposta na vizinha Jacareí. A artista fez intervenções sobre fotografia de Lucas Lacaz Ruiz. No foco, um menino com seus brinquedos, diante de um cenário de destruição. A realidade da foto foi amplificada com a camada de terra e entulho que a artista depositou diante/sobre a imagem.

Mapping

A chita certamente ficou de lado com a proposta inovadora que fez para figurinos do Grupo Piraquara e do primeiro vídeo mapping realizado na cidade pelo grupo  Usina 14 (que ajudou a criar), em evento da FCCR. O mapping é a projeção artística geralmente tendo edifícios como suporte. No caso, foram feitas na fachada do Museu Municipal, antigo prédio da Câmara de Vereadores da cidade. Nas paredes, projeções de obras de artistas, cenas da cidade e uma citação ao incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro.

Pitiu maneja suas tintas, telas, fotografias, papéis (gosta da reticulação das imagens de outdoors), no atelier montando em casa, em São José dos Campos. Foi despertada para a arte ainda menina, ao frequentar o galpão de arte infantil de Ivone Weis, no CTA (Centro Técnico de Aeronáutica), atual DCTA, onde morou enquanto o pai, Asiel Bomfin, dava aulas no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica). Hoje Ivone Weis é o nome da galeria de arte da Univap. A arte como atividade “de vida” deu-se a partir dos anos 1990, após alguns fracassos comerciais, na esteira do Plano Collor. Hoje ajuda também a artista a superar uma grande perda.

Do Curso de Arquitetura, iniciado na FAU-São José, Pitiu ainda aproveita lições de espaço, importantes no desenvolvimento de cenários e figurinos para peças teatrais, de grupos como Cia. De Teatro da Cidade, Grupo Piraquara, Velhus Novatus. No caso do teatro da rua Eliza,  não perdeu tempo, transformou uma das paredes em área expositiva.
Durante vários anos, Pitiu participou de cursos e debates na Escola de
Comunicações e Artes e na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, na
Universidade de São Paulo. Na FAU, teve o encontro epifânico sobre “interação
de cores”, em aulas com a professora Élide Monzeglio, que lhe apresentou um
livro original do artista Josef Albers, professor da Bauhaus, todo pintado por seus alunos.

Mais recentemente, em 2014 e 2019, o trabalho de Pitiu ganhou cenários europeus, com direito à sala com vista para um dos canais de Veneza. A artista fez residência artística na Scuola Grafica Internazionale di Venezia. Mapeou a cidade, não com fotografias “sempre as mesmas” de um lugar sabidamente fotogênico, mas registrando a cidade no seu primeiro pulsar, sem a massa de turistas, em horários alternativos, para flagrar rotinas de entrega de pães a hotéis, verduras a restaurantes… Foi a fundo na pesquisa de pontos fora do roteiro, galpões onde se fabricam as gôndolas, onde se faz a tecelagem mais tradicional. Os frutos dessa pesquisa foram impressos em canvas, receberam a intervenção das tintas, para depois serem expostas na própria scuola, sob o título Lavoratori di Venezia.

Não há dúvida de que Pitiu também foi uma trabalhadora em Veneza, dessas que a arte, em todo canto, pede e precisa.



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