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CAEB: educação ambiental e artística unidas para a inclusão

Sob a batuta da médica Ema Ely Salomão Bonetti, o Centro Ambiental Edoardo Bonetti, no Torrão de Ouro, em São José dos Campos, traz a criança para o centro de seus projetos educacionais, com ajuda da música e da natureza. E sempre apoia a arte que “enobrece o homem”.

José Guilherme R. Ferreira Publicado em 16/09/2021, às 19:50 • Atualizado em 1/10/21, às 9:13




Com a bênção dos pássaros, novos trinados começam a ser ouvidos nas instalações do Centro Ambiental Edoardo Bonetti (CAEB), no Torrão de Ouro, região Leste de São José dos Campos. Propagam-se a partir das flautas doces de um grupo de 30 crianças e adolescentes, alunos da Fundação Hélio Augusto de Souza (FUNDHAS). “Sopro de Música” é resultado de uma parceria exemplar: a FUNDHAS transporta os aprendizes até o CAEB, que abre  exuberante natureza e seu amplo espaço para as aulas. A Fundação Cultural Cassiano Ricardo (FCCR) empresta o professor. Na sexta-feira 3 de setembro, o CAEB entregou a cada um deles a sua flauta. Agora é voar.

Fotos: Divulgação. Ema Bonetti: ações de inclusão

Os olhos da médica Ema Ely Salomão Bonetti, diretora-presidente do CAEB, brilham ao falar do projeto “Sopro de Música”. Afinal, o som das flautas vai muito longe. Há algo intangível no ar, no compasso de um sonho antigo, cultivado por ela e o marido, o engenheiro Edoardo Bonetti, o italiano pelo qual se enamorou na sua Lorena de nascimento e que lhe faz hoje muita falta. Ema conta que Edoardo, desde o início da construção do espaço, tinha em mente ações de “inclusão”. Queria ver por ali, naquele casarão de 400 m², pé-direito alto, com várias salas, boa acústica, justamente crianças vulneráveis tocando flauta doce, integrando canto-corais, em aulas de iniciação musical, e – claro – tudo aberto ao “contágio” inspirador do seu meio ambiente. Edoardo deve estar feliz.

Torrão de Ouro: 41 mil m²

Quando Edoardo se aposentou, em 1992, convidou Ema para sair de São Paulo, “morar no mato”. O casal já tinha um terreno de 41 mil m² no Torrão de Ouro, adquirido em 1975 do grande corretor de imóveis da época José Possidônio de Freitas. É mesmo um tesouro, cravado em uma área de transição de biomas da Mata Atlântica e do Cerrado. O ornitólogo Vagner Luís Camilotti registrou a ocorrência de 142 aves por lá. E tão importante é o arranjo de fauna e flora que há um forte empenho para que 19 mil m² dessa área sejam considerados Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN). O processo está no início. Segundo informações dos técnicos do CAEB, “seria um procedimento pioneiro no Vale do Paraíba, não somente pela inexistência no âmbito municipal de outras RPPNs, mas também por ser o protótipo para o desenvolvimento de uma legislação municipal, considerando que essas Unidades de Conservação (UC) hoje existem apenas no âmbito Estadual e Federal”.

Durante alguns anos, de 1997 a 2003, a casa-sede abrigou eventos, foi espaço para treinamento de executivos. O CAEB, com sua proposta focada em educação ambiental e artística, em fomento de cultura, nasceu mais tarde, em 2017, com uma readequação dos espaços e com novos desejos. Em reconhecimento ao seu papel na cena cultural, este ano o Centro Ambiental Edoardo Bonetti recebeu a chancela de “Ponto de Cultura”, concedida pela Secretaria Especial de Cultura do Ministério do Turismo.

O lago do Centro Ambiental Edoardo Bonetti

Nossas aves, nossas músicas

A musicista Raquel Aranha, diretora sociocultural da instituição e braço direito de Ema, é a idealizadora do “Choro Alado”, projeto educacional fomentado pelo Fundo Municipal de Cultura. “Choro alado” une de maneira afinada a arte “ready-made” das aves à música brasileira, seus autores, seus instrumentos de base. Tico-tico, beija-flor, sabiá, andorinha. Chorinho, valsa, tango brasileiro, polca. Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Henrique Albertazzi, Raul Silva. Flauta transversal, cavaquinho, pandeiro, violão.

Formada em violino barroco pelo Conservatório Real de Haia, na Holanda, Raquel trouxe de sua experiência sensibilidade e inteligência para produzir uma cartilha destinada a crianças, na qual educação musical e ambiental derrubam fronteiras, em ritmo holístico. “Tico-tico no fubá”, o chorinho de Zequinha de Abreu (1880-1935), executado com flauta transversal, traz à cena o pássaro tico-tico de verdade. O tango brasileiro “Beija-flor”, de Ernesto Nazareth (1863-1934) trata de ave e cavaquinho ao mesmo tempo. Ema espera que, mais à frente, agora em outubro talvez, esse projeto chegue efetivamente às escolas. Acredita que o papel do terceiro setor é justamente esse, perceber e suprir lacunas do primeiro setor, no sentido de complementar uma grade ou de criar projetos extra-curriculares, radiantes e sonoros como o “Choro Alado”. Em tempos bicudos, “Nossas aves, nossas músicas”, uma cartilha “para colorir”, é oferecida gratuitamente em download, no site do CAEB. Sons de pássaros e de instrumentos aparecem em show conjunto no canal do CAEB no Youtube, com a participação do Quarteto Aguará: Everton Campos (flauta-transversal e piccolo), Luiz Paulo Muricy (cavaquinho), Gabriel Amaral (violão de sete cordas) e Bruno Bertolino (pandeiro).

Pelo menos 142 aves diferentes podem ser observadas na mata e nos dois pomares do CAEB. Com sorte, o visitante também poderá
admirá-los um dia desses, quando a rotina votar ao normal. O levantamento cuidadoso das ocorrências no CAEB, feito em campo pelo ornitólogo Vagner Luís Camilotti, constitui um guia impecável de
estímulo ao birdwatching, que envolve
o prazer de contemplar a natureza.
Uma consulta à publicação revela,
por exemplo, que um jacuaçu verde-bronzeado mora ou já passou pela mata. E também um quiriri, uma saracura-do-mato, um tuim, um alma-de-gato, um anu-branco “topetudo”…

As árvores nativas do local também já foram devidamente identificadas, como se pode notar nas plaquinhas indicativas espalhadas pelas trilhas ecológicas entre os pomares. As crianças e jovens ­– e adultos também – ­ gostam dos passeios que podem terminar no Laboratório do Naturalista Mirim, onde há microscópios e herbário. Do verde da mata se passa tranquilamente à cor do rico orquidário, setores cuidados pelo engenheiro florestal Rogério Mazzeo, com o apoio de um pequeno grupo de estagiários. Não à toa, Ema gosta das copaíbas que, nativas no seu terreno, pontuam a paisagem. Uma dessas copaíbas, na frente da casa, a faz lembrar do marido. “Edoardo me dizia, à época da construção, que à sombra dessa copaíba recuperava forças para continuar as obras.” Qualquer dia desses ainda veremos a copaíba como símbolo do CAEB.

Horta PANC: estímulo à alimentação saudável

Horta PANC

A horta PANC é outro orgulho da diretora. Para os ainda não-convertidos: a sigla PANC significa Plantas Alimentícias Não-Convencionais, aquelas desconhecidas, que ainda convivem com esgares e perguntas: “e isso é de comer?”. Estamos diante de azedinhas, capuchinhas, peixinhos… A horta PANC foi um dos primeiros projetos na área de educação ambiental, um trabalho conjunto do CAEB com a Agência Paulista de Tecnologia dos Agronegócios, da Secretaria de Abastecimento e Agricultura em Pindamonhangaba. Mas não é só isso: a horta cumpre um dos compromissos da entidade: o de promover a alimentação saudável. O biólogo Valdely Kinupp, um dos papas mundiais do assunto, identificou as inúmeras PANCs do CAEB. Uma horta especializada foi plantada. Com esse patrimônio em mãos, estruturaram um curso para mães, com apoio da Prefeitura: como plantar, colher, cozinhar e degustar essas plantas “desconhecidas”. A ideia é estimular a substituição dos alimentos superprocessados por PANCs no cardápio das famílias e de suas crianças. Livros de receitas com PANCs foram editados. Ema diz que as PANCs já fazem parte da sua própria rotina de saladas: ora-pro-nobis, flores e folhas do hibisco… Mas quando quer impressionar o visitante ou fazer a propaganda do potencial das PANCs pede à chef Ana Alice Corrêa para preparar uma sempre surpreendente moqueca de caramoela. O CAEB também mantém canteiros com plantas medicinais e aromáticas. E há fungos silvestres comestíveis espalhados pela mata, um mundo já observado e detalhado pela Dra. Elisa Sposito, da Unifesp.

Homenagem ao Vale Histórico

Cercada de verde, “a sede do CAEB é uma homenagem ao Vale Histórico”. Suas três salas ganharam os nomes de Lorena, Areias e Silveiras. Em cada uma delas há um quadro em madeira representando uma fazenda do Ciclo do Café, entalhados a partir de desenhos em bico de pena do célebre casal de artistas Teresa e Tom Maia.

No salão principal, sobressai-se reluzente o elegante piano de cauda. Em exibição também uma pequena coleção de instrumentos musicais: duas rabecas, instrumento de cordas genuinamente brasileiro, fabricadas por mestres caiçaras, um alaúde árabe herança do avô libanês, um instrumento de percussão tunisiano, uma  flauta egípcia muito antiga. O cravo é um requinte à parte. Originalmente monocromático, foi pintado por George Gütlich a convite de Ema. O artista escolheu homenagear o Vale Histórico com uma paisagem da Pedra do Baú.

O cravo, no salão principal: com a paisagem da Pedra do Baú, de George Gütlich

É nessas instalações que a cultura floresce como um todo, em conexões, amplificação “inspirada pelas nove musas”, como gosta de dizer Ema. Sim, há uma preocupação educacional evidente, mas há o encanto de toda a “arte que enobrece o homem”. O poeta português Luís Serguilha apresentou no salão do CAEB o livro de poemas “Fotossíntese de Palavras”, do psiquiatra e psicanalista Alcimar  Alves de Souza Lima. No CAEB, crianças de escolas públicas conheceram um pouco da magia do projeto “Cartas Perdidas”, liderado pelo jornalista Guilhermo Codazzi. Algumas mensagens são distribuídas ao léu, envelopes deixados em ruas, parques, praças de cidades, levando carinho a desconhecidos. Algumas vezes têm endereço certo, destinadas a asilos, por exemplo. No caso da oficina no CAEB, os alunos enviaram e receberam cartas de idosos de uma instituição de Pindamonhangaba.

A música barroca, o jazz, a música brasileira vibram também por lá. Melhor dizer que, como a vegetação a música é um dos pilares do CAEB. E a lista de artistas  que lá se apresentaram ou que tiveram o apoio do CAEB é representativa: André Mehmari ao piano executando Ernesto Nazareth; o norte-americano Evan Megaro,  uma espécie de “brazilianista da música”, com seu jazz; Manfredo Kraemer apresentando o seu violino barroco; o brasileiro Hércules Gomes e seu concerto “Os Pianeiros e o Choro”, o Crarrapixo Trio evoluindo com cravo, rabecas, percussão.   Há entre os planos do CAEB a criação de um Núcleo de Música Antiga, ocupando um espaço vazio, já que iniciativas semelhantes no Estado de São Paulo foram descontinuadas. O cravo já existe. E a titular bem poderá ser a cravista Isabel Kanji, de São Paulo. Em novembro, ela se apresentará no Teatro Benedito Alves, em São José dos Campos, numa parceria do CAEB com a Fundação Cultural Cassiano Ricardo (sempre uma boa parceria!). “Estamos agora atrás de recursos”, diz Ema. Eles vão chegar, chilreia um passarinho.

 



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